sábado, 4 de junho de 2011

Arcano 17 - A ESTRELA: fada encantada dos meus sonhos...



A primeira vez que me vi sozinha, morando em outra cidade, diante de tudo o que me era desconhecido, pensei numa maneira distraída de passar um tempo comigo mesma; então comecei a escrever e a me dedicar ao estudo da Espiritualidade, o que me levava a usufruir longas horas de uma paz interior, cuja transcendência não se define em palavras. Sentir era o essencial nesses momentos de rara pureza; minha singela composição falava de coisas, de fatos, de pessoas, de minha certeza em dias melhores; falava de grandes amigos e camaradas da mocidade, das coisas tangíveis e impossíveis, da mãe que perdi tão cedo, do pai que ainda precisava ser forte para continuar... todas as lembranças estavam presentes nas lágrimas que caíam como a chuva que ninguém pode conter. 

Eu me entregava ao pensamento de qualquer coisa que tornasse a paisagem mais bela. Era quando eu via a fadinha colorida dos meus sonhos, ela surgia de surpresa e me assustava com a sua invisível presença tão palpável, os seus ruídos quebrando o silêncio na minha mente ecoavam como as badaladas de um sino no meio da noite – eu ouvia o barulho, a voz risonha que se fundia numa única melodia, sentia o cheiro daquele aroma agradável de jasmim-limão, era algo da memória, onde a infância passava diante de mim, as molecagens, as quedas de bicicleta que deixaram cicatrizes, a saborosa e genuína comida dos almoços de domingo e de todos falando ao mesmo tempo, mas o principal era a pureza inocente que esse ser encantado trazia à minha alma com a sua linda varinha mágica. 

Eu me questionava sobre tantas coisas que já não conseguia compreender com a mesma clareza de outrora, pois há momentos na vida em que nos perdemos de nós mesmos, e foi nessa fase angustiante da existência que me voltei para a busca do que realmente move o ser humano em sua caminhada na Terra, mas não encontrei fácil uma resposta que me tirasse da inércia em que me encontrava, tempos difíceis, quando pensamos que não vamos dar conta de educar os filhos como nossos pais ou de sorrir sem motivo... 

As crises existenciais fazem parte da evolução, mas para nossa família, a perda repentina da mãe amada nos fez retornar para um novo ponto de partida, de onde cada um deu seu início, como crianças que aprendem a dar os seus primeiros passos, de forma trôpega e sonâmbula, levando os lixos vivenciais para serem pouco a pouco dissipados. Em meio ao vazio de meu coração, ficava horas fitando o céu e olhando as nuvens riscarem seus desenhos estranhos e engraçados... 

As perdas emocionais foram sucessivas. Deixei tudo para trás, pai, irmãos, amigos, a terra em que cresci, o lar onde nasceram minhas filhas, tudo era propício a um novo começo. Eu tinha de permitir que um ciclo de renovação viesse dar outra forma ao meu destino, misturando as lágrimas resignadas à poeira que espantava de minhas gavetas, e alguns conceitos formados desde a juventude feneceram tão rápido que foram descartados, assim como as peças amareladas pelo tempo, traças inúteis e cinzentas que eu sacudia com as mãos trêmulas, mas com o pensamento firme no futuro. 

Eu aprendera a ter convicções e essa marca de natureza que às vezes pesava no vasto jogo de interesses das relações humanas, fazia naquele momento uma diferença significativa, dava-me auto-confiança, fé em dias mais venturosos e a certeza de que tudo passa na vida. Busquei a meditação e o autoconhecimento. 

Um dia, nesses finais de tarde em que a hora do chá leva o pensamento a lugares tão longínquos e pitorescos, uma sensação estranha percorreu meu corpo em forma de choques bem sutis, como se de repente jorrasse do coração uma luz preciosa... era o mundo encantado das estrelinhas cintilantes e azuis, com suas varinhas de consolo e de esperança ao meu coração. 

Meu monólogo pode ter durado um segundo, não sei ao certo, mas foi um momento de intimidade comigo, onde essa outra parte de mim que eu ainda não conhecia me impulsionava a um vôo altíssimo e soberbo. No silêncio da meditação, a Estrela da esperança conversou comigo e me disse tantas coisas bonitas, dentre elas fez-me perceber o valor da família, aquela que lhe ampara em todos os instantes, bons ou ruins, e agora na distância, como era maravilhoso saber que ela existia e era sólida como a montanha que permanece fixa, tanto no rigor da neve quanto no calor do sol. 

Eu corri para os meus cadernos de capas azuis e passei horas intermináveis a contar para um amigo imaginário todas as minhas sensações, como se fosse brincadeira de adolescentes, não me importava se as páginas eram bem escritas, as emoções, sim, é que tinham de ser verdadeiras e profundas, haveria de ter em cada linha o meu olhar, a minha alegria, a minha dor, assim o mais nobre sentimento da minha alma estaria preservado naquelas folhas perfumadas de incenso. 

Aos poucos, deixei os aromas da natureza invadirem o recanto das minhas idéias aprisionadas nas correntes do pessimismo, a fada madrinha veio a mim para abrir os cadeados de minha bagagem tão pesada e dar leveza às emoções que nela ficaram presas... 

Essa libertação me ensinou que viver é um ato de espera, onde cada coisa tem seu tempo de amadurecer, pois somente assim é que aprendemos a sentir... sentir o afeto, a amizade, o abraço sincero, o amor que nos redime de tudo. Aprendi que o mundo pode desabar sobre mim, mas que acima de minha cabeça sempre brilhará uma Estrela. Essa fada chamada Estrela é a mãe da Esperança...! 



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