segunda-feira, 30 de maio de 2011

Quem quer ter um psicanalista?

Apesar da psicanálise ser uma ciência que visa, sobretudo, despertar no homem seus valores positivos, dando início a um processo de cura ou de melhora dos distúrbios da mente, ao nível do inconsciente, não creio, ainda, que, no Brasil, ela já encontre sua realização plena. Às vezes, os fundamentos sobre os quais se apóiam uma teoria, ou mesmo, uma filosofia de vida, ficam seriamente afetados e desacreditados, quando neles esbarra um sistema, sem condições de recebê-los e acatá-los com seriedade.

Em alguns países, as consultas ao psicanalista chegam a ser em número proporcional às que se fazem ao dentista ou ao médico ginecologista; tudo depende da importância que cada grupo social atribui ao processo terapêutico. Há alguns anos atrás, assisti um filme pela televisão, cujo enredo narrava fatos verídicos de uma jovem, acometida de distúrbios psicológicos, que a faziam adquirir dezesseis personalidades diferentes, e foram necessários onze anos de intensivo tratamento, para que ela se desvencilhasse de seus conflitos interiores e problemas gerados desde a infância.

A médica desta jovem tornou-se, também, sua grande amiga, indo buscar respostas fora da terapia, como visitar a casa em que a jovem morara quando criança, etc..., ou seja, além do conhecimento científico, a médica desenvolvia seu trabalho com dignidade e respeito pela pessoa humana.  

Creio que nisso consistia a essência do pensamento freudiano, quando nos voltamos para a conjuntura social de pobreza e miséria, em que ao estudo da mente do homem, é indispensável uma dose de amor e de compreensão, não somente pelos problemas que os cidadãos possam vir a ter em família ou na intimidade, mas, também, pelos salários aviltantes que ganham, pelos filhos que sustentam e por todas as dificuldades que passam...

Pessoalmente, creio que o descaso pelo bem-estar psíquico no Brasil é uma ferida que sangra a céu aberto e só não vê quem não quer; pobre não pode ter estafa, angústia, depressão ou outros males aflitivos da alma, o sistema econômico e social é estruturado para manter essas pessoas em seu exílio involuntário, sem direito a tratamento decente e outros benefícios.

A psicanálise poderia ocupar mais espaço na vida brasileira, de modo a incorporar as neuroses coletivas como pauta de sua agenda, cuidando dos sintomas estressantes e das desordens interiores do homem moderno, a exemplo de outras ciências e da própria religião. Quem sabe assim, não existiria tanto fanatismo em nossa sociedade. 

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